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Desnorte

R$ 460,00Preço
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Nasci no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, à época um “gueto” da comunidade judaica. Fui criado no caldeirão sincrético judaísmo/socialismo. Meus pais, ao me darem despretensiosamente uma câmera simples, fundaram em mim o fotógrafo que eu viria a ser. A inquietação, a indisciplina e certo humor cáustico eram idiossincrasias de minha personalidade na infância e me acompanham até hoje, mais domadas, obviamente, pelas circunstâncias da vida. Certamente essas características estão coladas às imagens produzidas por mim ao longo destes anos.


A morte do meu pai foi o que definiu o meu ofício com a fotografia. Eu tinha 16 anos e precisei começar a trabalhar; o emprego que consegui foi como aprendiz no estúdio da Editora Abril. Daí em diante, fui sendo conduzido por uma ambiguidade que me aproximava e me afastava da profissão, até que uma espécie de chamado vocacional se apossou de mim, amalgamando-me à fotografia de tal forma que hoje é impossível dissociar-me dela. Eu sou ela e vice-versa.


Para marcar os 50 anos de minha trajetória desde então, lanço este Desnorte, obra, cuja desordem temática salta aos olhos e é parte constitutiva e deliberada desta edição. Dispor lado a lado imagens de épocas, assuntos e lugares díspares – até mesmo inconciliáveis – é um desafio enorme quando se pretende, de forma sucinta, dar conta de uma carreira tão longa. Esse processo não foi feito, é claro, amontoando fotografias caçadas aleatoriamente. Há uma lógica e uma ordem: retratos, fotos de moda, polaroides, imagens extraídas de meus livros/exposições, fotos de viagens turísticas e de viagens em busca de locações, anotações fotográficas, álbum de família e muitos nus femininos feitos para trabalhos comissionados. Todas essas imagens estão aqui reunidas numa colcha de retalhos que embaralha o jogo da percepção do multifacetado fotógrafo que sou.


Coletar imagens no meu acervo e conectá-las a outras, de forma a traçar novos nexos e narrativas foi o meu (des)norte. Como os músicos fazem com suas canções antigas, atualizei as fotografias, remixando-as e recontextualizando-as. Este novo trabalho é o resultado dessa intrincada busca.


E sigo reafirmando as possibilidades, advogadas por mim desde há muito tempo, de transitar pelos vários gêneros da fotografia e de passar despudoradamente de uma vertente a outra sem a necessidade do salvo-conduto de ser um especialista monotemático. Nada contra a ser monotemático, de verdade, apenas não é a minha; em que pese já ter feito alguns trabalhos cujo tema equivalia a um continente todo.


Finalmente, uma edição comemorativa não foge à regra do olhar retrospectivo. Muito embora eu ainda esteja muito ativo em minha produção, o zumbido da retrospectiva vem com cheiro de éter – e dá medo. Olhar para trás mexe também com a questão de como vagar pelos vazios e incertezas do futuro. Nestes tempos funestos do mundo, e particularmente do Brasil, o medo ganha proporções ainda maiores.


Contudo, resistir – na acepção mais abrangente do termo –, na vida pessoal, profissional e política, é legado de minha formação primeira, e é resistindo que sigo.


Sigamos.


Bob Wolfenson

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