Temos!

Desde a adolescência trabalho como fotógrafo. A insegurança característica desse período da vida fez com que a consciência de minha “vo­cação” fosse tardia. Explico-me: ainda que eu tenha começado cedo na fotografia, por uma contingência – a morte de meu pai jogara-me logo à procura de um emprego –, o estúdio fo­tográfico da Editora Abril era então apenas um trabalho para um jovem confuso em meio às escolhas profissionais, com a necessidade de se sustentar e, principalmente, de tentar preencher a perda de alguém que amava muito. Durante muitos anos não me imaginava fotógrafo, ainda que, ao contrário de todos os meus amigos, já ti­vesse um ofício. Nesse período, vacilei e, muitas vezes, quase desisti. Não sei o exato momento em que essas dúvidas se dissiparam e a “Foto­grafia”, digamos assim, caiu sobre mim. Olhando em retrospectiva, muitos trabalhos que produzi naqueles anos 1970 e que estão nesta exposição revelam algo que minha falta de confiança não me deixava notar então: já existia em mim um certo olhar, um modo de ver que se prolongou e impregnou toda a minha produção.

Em algum momento, depois que essas questões ficaram para trás, vivi intensamente a hiperativi­dade da profissão, em sua variedade de sujeitos, objetos, necessidades, utilizações e fins, que con­tinuam a estar no meu caminho, no movimento constante de ser vários fotógrafos. Afasto aqui as hierarquias éticas ou artísticas. Vivo mesmo em trânsito – eu não seria o fotógrafo dos retratos aqui expostos se não fosse todos os outros que me habitam: o fotógrafo de moda, o de nus, o de publicidade e o dos constantes projetos pessoais, todos frutos de um profissional generalista.

Percebi, com o tempo, que os encontros exibi­dos nesta mostra na forma de retratos obede­cem à própria natureza dos encontros: não há fórmula, e sim personalidades que se “chocam”, cada uma em busca de um sentido para essa confluência. A infinidade de pedidos dos que me contrataram e dos que estiveram diante de minha câmera – exceto aqueles que foram flagrados sem prévio consentimento – serviram como aprendizado e formataram um método que, a meu ver, está evidente nesta reunião de imagens: um senso de cooperação e confiança mútuas, e minha busca de algum ruído e origi­nalidade na imagem de personalidades conhe­cidas – algumas muito conhecidas e, portanto, já muito fotografadas.

Não acredito na tolice de que foto descontraída é que seja boa ou, ainda, na ideia de captação da alma do sujeito, de tradução de sua verda­deira e profunda essência – ideias que povoam as definições do senso comum do que seja um bom retrato. Todo mundo que já foi fotografado sabe que, quando tem uma câmera apontada para si, o sujeito tenta se comportar de maneira a antecipar a pose final. Nada contra, há mesmo um aspecto ficcional nestes retratos.

Em que pese muitas destas fotografias serem recordações de encontros fugazes, dos quais mi­nha memória não reteve os detalhes, elas são um testemunho da grande aventura dessa ati­vidade e de um sentimento muito presente no instante em que pressiono o obturador: uma in­tensidade indefinível, abstrata mesmo, que nos põe – a mim e a meu modelo, num fluxo de movi­mentos, gestos e, muitas vezes, silêncios, até que entendamos ter exaurido todo o possível da situ­ação e chegue o momento de eu dizer: “temos”.

Bob Wolfenson

I’ve worked with photography ever since I was a teenager. The natural insecurity of this period of one’s life made my recognition of my “calling” come quite late. I’ll explain myself: even though I started photography quite early due to a contingency - the death of my father forced me to find a job – the photography studio of Editora Abril was simply a place of work for a confused young boy in the midst of professional choices, with the necessity of supporting himself financially and especially, of trying to overcome the grief of losing someone who he really loved. Yet, for many years I did not imagine myself as a photographer, even though, in contrast to all of my friends, I already had a career. During this period I made loads of mistakes and many times almost gave up… I don’t know the exact moment when these doubts disappeared and that “Photography”, let’s say, took over me. Looking at this in retrospective, a lot of the work I produced in the 1970s, and that are part of this exhibition, reveal something that my lack of confidence would not allow me to see back then: I already had in me a certain gaze, a way of seeing that has been prolonged and has impregnated itself in all my productions.

At some point these questions were left behind and I started to live the profession’s hyperactivity very intensely, with its variety of subjects, objects, necessities, utilities, which continue to be in my path. In the constant movement to be many photographers at once, I distance myself from the ethical or artistic hierarchies. I live in transit – I would not be the photographer of the portraits shown here was I not all the other photographers that exist within me: the fashion photographer, the nude photographer, the advertising photographer and the photographer of the many personal projects that I produce. These are all fruit of a generalist professional.

With time I noticed that the encounters represented here in the form of portraits obey the very nature of encounters: there is no formula, there are only people that are “shocked;” each of them looking for a meaning in this confluence. The infinite number of requests from those who hire me and of those before the camera – except those who were caught without consent – worked as lessons and formatted a method which, in my view, is evident in this assemblage of images: a sense of cooperation and mutual trust, and my search for a “ruído” and originality in the portrayal of famous people – some of which are very famous and therefore have been photographed a lot.

 

I don’t believe in the nonsense that a good photo needs to be a relaxed one, or even in the idea of capturing the subject’s soul and of a translation of the subject’s deep and true essence – ideas that populate the definition of what makes a good portrait. Everyone who’s been photographed knows that when there is a camera pointed at you, the subject will always behave in a way as to anticipate the final pose. I have nothing against this behaviour, there really is a fictional aspect to these portraits.

Many of the photos here are markers of fleeting meetings, of which my memory has not retained the details, they are testimony of a great adventure of this activity and of a very present sentiment: the instant that I release the shutter; an indefinable intensity, really abstract and which places us – myself and my model – in a flow of movements, gestures and, many times, silences, until we understand that we have exhausted all the possible situations and a moment arises for me to say “temos,” meaning, we’ve got it.

Bob Wolfenson