Retratos da Beleza Incontrolável 

por Denio Munia Benfatti, 2006

Centro tradicional, centro urbano, cidade. Em algum momento por volta dos anos 70, além do anunciado fim das utopias, do urbanismo, da morte das cidades, começamos também a perder o centro, o centro urbano. De fato algo se perdeu. Nem tanto talvez, nem tudo isso e nem do mesmo jeito para os diferentes lugares e cidades. Os centros tradicionais insistem, persistem e apresentam uma capacidade incrível de transformação e recomposição. Que vivam os centros. 

Nessa mesma época, anos 70, para um número considerável de cidades, tem início uma preocupação concreta e objetiva com suas áreas centrais. Primeiro com a preservação de seus conjuntos históricos e, em seguida, com sua reabilitação através de uma série de intervenções intra-urbanas, configurando uma nova agenda urbanística em escala internacional: Londres, Barcelona, Paris… são cidades e transformações que despontam como referências atualizadas dessa nova agenda. 

Muito mais que uma adesão a questões e propostas referenciais vindas de outros contextos, o centro de São Paulo constitui hoje um problema real: ao mesmo tempo que necessita de transformações específicas está operando-as. Ao contrário dos centros das cidades européias, nos quais a estandardização tipológica e/ou definição estilística, própria das capitais do século XIX, impõem um sentido de coerência e harmonia com o patrimônio já constituído, os centros de cidades como São Paulo são espaços de natureza contraditória, híbrida, justaposta. Foram construídos e reconstruídos continuamente e sua configuração atual remanesce das transformações episódicas dos anos 20 e 30, e de modo mais acentuado, das transformações dos anos 50 até os 70. 

A cidade resultante desse processo não surge como visão arquitetônica unitária, mas como sedimentação, acumulação de vida urbana. A radicalidade desses fenômenos certamente não nos exime de encarar uma certa destruição cultural, de parte da história urbana, mas, ao mesmo tempo, pelo fato de terem ocorrido ao longo de um período razoavelmente longo, coloca-nos hoje frente a realidades já qüinquagenárias. A cidade real, relações entre diferentes tempos, uma herança urbana de outra natureza, insólita, contrastada, de onde devemos descobrir e retirar uma idéia própria de beleza. 

O panorama e a paisagem dessas áreas centrais focados sob este ângulo conferem tanta importância ao que restou das edificações ecléticas como às pontuações das edificações modernas inseridas nas quadras tradicionais. Não nos referimos apenas às edificações referenciais — Edifício Itália, Copan, as Grandes Galerias —, como também à arquitetura usual das construções que compõem as grandes massas edificadas da cidade. Portanto, não são poucos os ângulos em que a configuração do centro histórico é parte importante da história da arquitetura moderna e contemporânea. São grandes formatos arquitetônicos sobrepondo à cidade existente uma outra história e, tal qual os conjuntos ecléticos, merecem todo nosso cuidado. Assim, não se reivindica a prevalência da cidade antiga, da garoa, do centro velho de São Paulo, mas a cidade da sedimentação. 

O novo olhar sobre essas áreas centrais valoriza portanto a cidade real e, por isso mesmo, tem acolhido de forma distinta a fragmentação e o deslocamento produzidos pela justaposição fora de escalas de autopistas urbanas elevadas, centros comerciais, arranha-céus e pequenas edificações. Em comparação com intenções nostálgicas de recuperar uma continuidade impossível de ruas e praças, esse novo foco porta a esse possível mal-estar inicial um signo positivo de vitalidade urbana, convertendo o choque urbano em um acontecimento fundamental e não necessariamente negativo. Ao contrário, trata essas situações como uma beleza incontrolável. Riqueza de registros e formas, a beleza da cidade se constrói através de uma certa anarquia.

Atualmente as cidades que se enquadram no esforço de integrar-se ao seleto clube das cidades globais têm procurado livrar-se de estigmas negativos, da aversão ideológica com relação à metrópole — mesmo aqueles mais seculares e persistentes, como o da grande cidade associada ao mal e à perdição. É um fenômeno que se difunde seletivamente entre algumas metrópoles nesta passagem do século XX para o XXI. Portanto, da aversão ideológica estamos passando à atração estética pelas formas renovadas da cidade.

Às metrópoles que não se enquadram neste figurino tradicional, que além de um agregado conectado de desagregações foram configuradas pelo choque, pela justaposição de elementos fora de escala, não resta senão impor a subversão e utilizar essa herança em benefício próprio. Assim, a essas inúmeras metáforas urbanísticas do momento atual acrescentam-se outras — compactas, fragmentárias, populares… —, e tudo isso passa a constituir o mais amplo pretexto contemporâneo que deverá (projeto) renovar a idéia de beleza. A beleza neste caso, e mais uma vez, retoma o sentido baudelairiano, algo que provoca espanto e pode até mesmo chocar o gosto convencional. 

Centros estranhamente belos, retratos da beleza incontrolável, expressos por um fotógrafo que muda de modelo para aprofundar ao mesmo tempo sua visão de mundo e seu modo de exprimi-la, realizando a transmutação de algo familiar e por vezes desvalorizado em uma beleza até então desconhecida.