Otto Stupakoff

Estúdio de Otto em Porto Alegre, 1955/ acervo IMS 

O fundo infinito para o fotógrafo equivale à folha em branco para o escritor. Ambos precisam ser preenchidos. E são onde, digamos assim, abstrações se concretizam na forma de fotografias e ideias escritas. O fotógrafo, no entanto, trabalha com questões técnicas específicas e, diferentemente do escritor, tem a câmera e as luzes como constantes necessárias à execução de seu trabalho. O resto, tanto para um como para o outro, é terreno fértil para a invenção.
 

O habitat do fundo infinito, na imensa maioria das vezes, é o espaço de um estúdio, um posto onde os fotógrafos, ditos de moda e/ou de retratos, exercem seu rito. Porém, como cada fotógrafo tem seu modo, cada estúdio tem sua especificidade; alguns são laboratórios de experimentações, outros funcionam como posições de segurança e controle. E muitos, ainda, são a própria casa do fotógrafo.
 

Em que pese a obra de Otto Stupakoff ser mais ampla e rica quando realizada em ambientes externos, portanto muito mais afeita ao imponderável e ao improviso – e estes aspectos são claramente constituintes de parte de seu processo de trabalho –, ele, entre idas e vindas, acabou tendo diversos estúdios. Em todos eles, de alguma forma, foi muito produtivo, e todos, ao final, se configuraram como antíteses de um estúdio formal. Mesmo o primeiro, em Porto Alegre, construído especialmente como tal, guardava características de um “não estúdio”.
 

Todos os imóveis que desenhou, ergueu ou ocupou ao longo de sua vida foram sempre tentativas de fazer do estúdio um lugar de acolhimento e conforto, muito mais próximo a um ateliê de artista do que a um estabelecimento próprio à função profissional. A profusão de coisas, objetos e obras de arte presentes nesses ambientes são o retrato de uma mente em constante ebulição e atestam as múltiplas facetas de seus interesses.
 

Otto ainda encontrava nesses espaços um refúgio, e fazia deles sua oficina de fundição de ideias e de exercício de suas aptidões: ora como fotógrafo de retratos ou publicidade, ora como autor de engenhosas colagens. Além do que, no âmbito desses recintos, ultrassedutores, recebia suas amigas e amigos, artistas e intelectuais. As fotos de moda, ao contrário do que faziam alguns de seus contemporâneos, eminentes fotógrafos de estúdio, como os americanos Richard Avedon e Irving Penn, aconteciam quase sempre em locações externas ou internas.
 

Enfim, para ele, o ateliê/estúdio era frequentemente seu porto seguro, um local fechado em si, protegido das variações do tempo, da imponderabilidade das cenas exteriores, do choque com a realidade das ruas e, mais que tudo, palco para suas fabulações e esquetes, onde pôde exercer parte de sua variada e particular dramaturgia.
 

De certa forma, não obstante todas essas considerações acima, o estúdio, com suas quatro paredes e seus fundos infinitos, não o continha, não comportava sua personalidade exuberante e aventureira. Sua folha em branco haveria de ser preenchida no planeta todo, subordinada ao seu olhar obsessivo em busca da beleza, a qual sempre dizia perseguir. Por isso seu périplo pelo mundo.

Bob Wolfenson

An infinite background for a photographer is like a blank page for a writer. Both need to be filled. And it is where, if I may say so, abstractions are concretized in the form of images and written ideas. The photographer, however, works with specific technical questions and, unlike the writer, has a camera and light as necessary constants for the execution of his works. The rest, for both, is a fertile area for creation.    

 

The habitat of the infinite background, most of the time, is the studio, a place where fashion and/or portrait photographers practice their ritual. However, as every photographer has their own style, every studio has its own specificity; some are laboratories for experiments and others work as point of security and control. And others, even, can be the photographer’s own home.

 

Even though Otto Stupakoff's work is more extensive and rich when produced in external areas, and therefore a lot more vulnerable to the unthinkable and to improvisation – and these aspects are clearly constituents of his work’s process –, he ended up owning many studios in the course of his life. In all of them, one way or another, he was very productive, and they were all arranged as a kind of “antithesis” of a formal studio. Even the very first studio, in Porto Alegre, built especially as such, owned characteristics of a “non studio”.

 

All the properties he drew, built or occupied during his life were always attempts of making a studio a welcoming and comfortable place, a lot more like an artist’s atelier than an establishment for a particular professional activity. The profusion of things, objects and works of art present in such places are a portrait of a mind that is in a constant state of agitation and confirms the multiple facets of his interests. 

 

Otto found in these spaces a form of refuge, and would use them as his workroom for the fusion of his ideas and aptitudes: At times as an advertising or portrait photographer, and every so often as the author of creative collages. In addition, within these ultra seductive areas, he would have friends over, artists and intellectuals. His fashion photographs, unlike some of his contemporaries, eminent studio photographers, such as Richard Avedon and Irving Penn, would mainly take place in external or internal locations. 

 

All in all, for him, the atelier/studio was his safe zone, a place enclosed within itself, protected from the variations of time, from the imponderability of the external scenes, from the reality shock of the streets and above all, a stage for his fables and sketches, where he could practice a part of his interchangeable and particular dramaturgy.

 

In a way, in spite of all the considerations above, the studio, with its four walls and its infinite background, would not contain him, would not be big enough to fit his exuberant and adventurous personality. His blank page would have been filled with the whole planet, subordinated by his obsessive gaze in search of beauty – that which he claimed to be perpetually pursuing – and resulting in his periplus of the world. 

Bob Wolfenson