Luigi Ghirri

Módena, 1973, série "O almoço na relva", Luigi Ghirri

Lorenzo Mammì, em seu belo artigo escrito no catálogo/livro da exposição Luigi Ghirri. Pensar por imagens, explicita e traduz de uma forma brilhante todas as aproximações necessárias que a vasta obra do fotógrafo italiano suscita – apesar da curta trajetória de sua vida, interrompida por um infarto fulminante aos 40 anos. Todavia, atendendo a um pedido da ZUM para que eu escrevesse sobre alguma fotografia da mostra, resolvi me aventurar a tecer algum juízo sobre a Módena, de 1973.

Escolhi esta por meu trabalho Belvedere ser herdeiro, ou melhor, tributário desta herança. Por absurda ignorância, não conhecia o trabalho de Ghirri até esta belíssima exposição que o IMS realizou em São Paulo. Entretanto, a linhagem se faz por descendência direta de imagens que se prenunciavam na fotografia americana dos anos 1960, pela figura dos já lendários fotógrafos William Eggleston e Stephen Shore, também admirados por Ghirri. Eles, através de suas obras, inauguraram uma nova ordem baseada nas imagens em cores e na banalidade naturalista e desimportante da cena fotografada. E o fizeram em oposição manifesta à fotografia em preto e branco, predominante à época, cujos conteúdos e formas pareciam exaustivamente estudados por seus autores fotógrafos, e era praticada largamente por grande parte deles que nutriam veleidades artísticas. Não que Ghirri fosse um intuitivo que saía fotografando indiscriminadamente; ao contrário: seu modo era racionalíssimo.

No entanto, para me ater à estrita observação da fotografia por mim escolhida, seus temas, como o desta foto, eram triviais. Em Módena, também está condensada a ideia – como sublinharam Thomas Demand e Christy Lange na conversa publicada no catálogo/livro – de que tudo que se precisa para entender e/ou apreciar uma fotografia de Ghirri está nela mesma. Além do que, como todo grande artista, ele transformava as coisas mais normais em sensações. Seguindo estes pressupostos, Módena me toca sobretudo por carregar algo que em meu Belvedere também afirmo: certa ausência de um sentido grandioso para a existência. Todos os objetos e paisagens aqui contidos estão na sua singeleza anódina, num pacto de não ação entre o observador e o observado. A arrumação modesta, kitsch e despretensiosa me remete às salas de estar de hotéis decadentes das estações de águas em Minas Gerais, cuja similaridade se faz impressionante e me conecta diretamente a esta fotografia. Enquadrada por Ghirri e contextualizada em seu inventário com o subtítulo da série “Desjejum na Relva”, uma alusão ao famoso quadro de Manet, esta antessala varanda é uma fatia pequena no edifício imenso que é a obra de Ghirri e, com a qual em meu primeiro contato já fiquei modificado.

Bob Wolfenson

Lorenzo Mammi, in a beautiful article written for Luigi Ghirri’s exhibition catalogue/book, Thinking Through Images, brilliantly exposes and translates all the necessary links that the Italian photographer’s vast work foments – despite his life’s short trajectory, interrupted by a fulminant heart attack at the age of 40. All the same, in response to a request from ZUM Magazine to write something about any photo of the show, I decided to adventure myself and share my opinion about Modena, 1973.

I chose this series, as my own project, Belvedere, is its inheritance, or better, a tribute to this inheritance. In my absurd ignorance, I did not know Ghirri’s work before this wonderful exhibition produced by the IMS in São Paulo. This work’s lineage descends directly from the indicative photos of the 60s American photography, through the image of the already legendary photographers, William Eggleston and Stephen Shore, also admired by Ghirri. Through their works, Eggleston and Shore, initiated a new style based on images in colour and on the naturalistic and unimportant banality of the scene being photographed. They did this as a clear opposition to black and white photography, predominant at the time, a time where form and content seemed excessively studied by its auteur photographers and were practiced by a huge number of them who nourished their artistic vanities. Not that Ghirri was an intuitive that went around photographing indiscriminately; on the contrary: his method was rationality.

However, to stick to the observation of the series I have chosen: its themes, as the themes of the photo above, were trivial. Modena holds on to the notion that all one needs in order to interpret or appreciate Ghirri’s photography is condensed within the photo itself – as Thomas Demand and Christy Lange emphasized in the public talk in the catalogue/book. In addition, like every major artist, he transformed the most ordinary things into sensations. Following these presuppositions, Modena touches me, above all, for carrying something that I also see in my Belvedere: I also affirm a certain absence of an overwhelming meaning for existence. All the objects and sceneries contained here find themselves in their own anodyne singularity, in a pact of inaction between the observer and the observed. The modest, kitsch and unpretentious composition reminds me of the living rooms of the decaying hotels at the water stations in Minas Gerais, its similarity is impressive and I feel directly connected to this work. Framed by Ghirri and contextualized in his inventory with the subtitle of the series “Marina di Ravenna”- an allusion to Manet’s famous painting - this “anti-room” balcony is a small slice of the immense edifice of Ghirri’s work, which has moved me in my very first contact with it.  

Bob Wolfenson