Fotografias Não Tiradas

Quando se trata de relatar experiências  muito pessoais como estas descritas no pequeno livro “Photographs Not Taken”, Fotografias Nao Tiradas”, idealizado por Will Steacy, fotógrafo e escritor americano, o qual compila histórias de alguns luminares da fotografia mundial indagados sobre as suas imagens não consumadas, a  gama de narrações de aventuras e circunstâncias limites é tamanha que não há sequer uma história, entre os mais de sessenta depoimentos, que se assemelhe a outra.

 

Para mim, há ainda, por razões óbvias de pertencer à “classe”, uma  identificação  profunda com  estes relatos, em que pese na maioria das vezes eu estar protegido pelo abrigo de um estúdio e/ou de uma situação encenada, onde o controle quase absoluto sobre o resultado final é a norma.

Nós, fotógrafos, não raro nos confrontamos com situações insólitas e frequentemente somos postos diante de dilemas profundos, como o de nos envolver emocionalmente nos fatos que prevíamos fotografar complicando assim a missão de realizar a imagem planejada. Ou mesmo  fazer a foto e o furo, no caso de fotojornalistas, e nos alijarmos das questões sentimentais subjacentes a cena capturada.  Alguns, como no caso de Joshua Lutz, um dos que figuram na publicação,  usam a câmera como anteparo ao envolvimento, como um bálsamo aos problemas de sua própria timidez ou mesmo como recurso de afastamento frente à terríveis experiências que seriam impensáveis sem o uso do equipamento.

Steacy fez uma bela curadoria ao convocar aqueles cujo espirito aventureiro, ou cujas obrigações profissionais, os põe frequentemente diante desses cotejos. Há no livro, entretanto, outros relatos que vão desde os dilemas citados acima,  dos filmes não carregados acidentalmente na máquina, do medo profundo diante do perigo, até os momentos fugazes onde não houve tempo hábil para o registro, passando ainda por inúmeras situações nas quais o fotógrafo está sem sua câmera, ou melhor, não quer operá-la e passeia como cidadão comum ao largo de fatos, que a seu ver seriam inquestionavelmente fotografáveis. 

A fotógrafa, Kelli Connel, fez uma curiosa lista na qual elenca acontecimentos pessoais que ficaram guardados em sua mente como algo não fotografado, e que, obviamente, nunca mais o serão segundo os cânones “Bressonianos” do “momento decisivo”. Afora, como em outras formas de expressão, ideias que ficam só na cabeça do autor e não se concretizam por razões as mais diversas . 

Quantas vezes ouvimos falar de livros não escritos, filmes não feitos, quadros não pintados.  Acredito que todo autor tem na cabeça a imagem de alguma coisa não realizada - esta se perdeu por algum tipo de impotência, ou por algo que tenha que permanecer no campo das abstrações. 

Sacar uma foto quando alguém cai bêbado na sua frente se esborrachando no chão - a imagem  do homem caído coroaria um trabalho de muitos anos - ou ajudá-lo a se recompor, e, digamos assim, socorrer uma vida? Esta seria a dúvida presente no momento do acontecimento relatada  pela fotógrafa americana Juliana Beasley. Claro, ela optou pela segunda alternativa. Aliás, a maioria das narrações do livro dá conta de um altruísmo auto atribuído no qual os fotógrafos sentem–se interditados por razões éticas a prosseguir fotografando quando as emoções ou a moral se impõe. Ainda há um depoimento, da já lendária Mary Ellen Mark, cujo arrependimento, ou impossibilidade de não ter podido  fotografar a  sua adolescência, formaram uma lacuna na sua biografia, que ela trata de minimizar ao instigar seus jovens alunos a capturarem intensamente a própria existência. 

Talvez a maior imperfeição do livro seja a de um certo cinismo ao imaginar que, em mais de 60 depoimentos, não haja algum pecadilho de posturas politicamente incorretas. Salvo o depoimento do americano Doug Dubois, que ao infringir as regras da publicação, a qual encomendou as histórias de fotografias  não realizadas, conta uma na qual declara haver não só fotografado, como  se aproveitado da confiança de um músico amigo que ao se aplicar de heroína à sua frente,  contaria com sua providencial discrição, e de fato a obteve; já que Dubois conseguiu o salvo conduto de figurar no livro por nunca ter publicado estas imagens.

De resto, os relatos são muito saborosos, verdadeiros e vívidos. E de fato me põe diante desta indagação  também.  Eu teria muitas histórias para contar, porém escolhi uma mais colada a minha experiência cotidiana.

No começo  da minha atividade profissional, assomado pelas naturais restrições de custos  a que um jovem fotografo está submetido, me utilizava frequentemente de uma estratégia que acreditava  dar conta de um certo relaxamento nas pessoas muito travadas as quais eu iria retratar. No início da sessão eu murmurava ao meu assistente para não carregar filme no chassi da minha Hasselblad.  -“Vamos começar assim ate que ela se solte”. Assim eu economizaria filmes e revelações de supostas imagens, realizadas nos momentos  tensos,  cujo  resultado eu cria não me interessar. Pensava que depois do terceiro falso filme rodado, poderia entrar com os verdadeiros,  e que encontraria então a situação ideal pra que o trabalho se realizasse plenamente. E claro que isto era segredo,  principalmente  para os olhos e ouvidos do cidadão/ã acuado diante da câmera no set fotográfico. Depois de ter deixado passar muitas oportunidades de ter obtido prováveis bons retratos - quando o ser humano à minha frente me surpreendia oferecendo logo de início, ainda que involuntariamente, o seu melhor.  Percebi o erro da tática no qual me engajara afora o patético da situação e a abandonei.

Ao longo da minha trajetória fui aprendendo que nunca saberemos  de antemão quando teremos “a foto”. Pode ser desde o primeiro até o ultimo clic da sessão.  Além do que, esta ideia de descontração e relaxamento é falsa e senso comum. Quantos belos retratos são e foram feitos em momentos de grande tensão. 

Bob Wolfenson

When we consider the narration of very personal experiences as the ones described in the small book, Photographs not Taken, by the American photographer and writer, Will Steacy, - a compilation of stories of some of the great minds of global photography questioning themselves about the images they have not produced - the number of narrations of adventures and limiting circumstances is so vast that there isn’t a single story that resembles the other in the more than seventy testimonies.

 

Due to the obvious reasons of belonging to a “class,” I feel a sense of profound identification with these accounts, despite the fact that I am usually protected by the shelter of a studio and/or a rehearsed situation, where an absolute control over the final result is a norm.

 

It is not rare for us, photographers, to confront unusual situations and we frequently face serious dilemmas as getting emotionally involved with the facts that we intend to photograph, complicating, in this way, the mission to succeed in constructing the image that has been formerly planned.  Or even, to create a photograph and a hole, as is the case of photojournalists: we ignore the sentimental issues that are implicit in the captured scenes. Some people, as is the case of Joshua Lutz - one of the figures of this publication - uses his camera as a shield to his involvement, as a consolation to the problems of his own self-consciousness or even as a resource to distance himself from the terrible experiences that would have been unthinkable without the equipment.

 

Steacy’s publication convoked those whose adventurous spirit and professional obligations put them frequently in front of these situations. In the book, the accounts range from the dilemmas stated above to films accidentally not charged, to fear when facing danger, to moments where there wasn’t enough time to register what one wanted, to the innumerable times when the photographer does not have his camera on him, or better, when he doesn’t want to use it, and walks around as a ordinary citizen around facts that would normally and unquestionably be photographable.

 

The photographer Kelli Connel made a curious list where she dotted down personal events that stuck to her memory as things that not been – and would never be – photographed, following the Bressonian notion of the “decisive instant.” And so it goes, as the other forms of expression, ideas that are only in the author’s mind and are not concretized for a diversity of reasons.

 

How many times have we heard about the books not written, films not made, paintings not painted? I believe that every author has, in their mind, the image of something that has not been materialized – that has been lost by some sort of impotence or by something that has to remain in the field of abstractions.

 

To take a photo of a drunkard who falls in front of you – the image of the fallen man would conclude a work of many years – or to help him recompose and, lets say, save a life? This was Juliana Beasley’s doubt at the time of the event. The American photographer opted for the second alternative, of course. Actually, most of the book’s narrative illustrates an attributed altruism where photographers are impeded, by ethical reasons, to photograph, as emotions or morality imposes itself before the possible image. There is a testimony by the legendary Mary Ellen Mark, whose regret, or impossibility of not being able to photograph her teenage years, created a gap in her biography, which she tries to minimize as she instigates her young students to capture intensely their own existence.

 

Maybe the biggest imperfection of the book is a kind of sarcasm in the fact that in more than 60 testimonies, there isn’t even a peccadillo of politically incorrect behaviours. Apart from the testimony by the American, Doug Dubois, who infringing the rules of publication – that ordered the stories of photographs not taken – tells a story where he declares that he not only photographed but used his musician friend’s trust, who, while taking heroine, would describe to Dubois his experience, in detail. He got the material he wished for but never published these images, which is in fact what allowed him to take part in the book.

 

The other accounts are very juicy, true and lived. And they indeed place me before this indignation. I would have many stories to tell, but I chose one that was once part of my everyday life.

 

At the beginning of my professional activity, frightened by the natural cost restrictions that a young photographer is submitted to, I frequently used a strategy that I thought would loosen up uptight people who I was going to photograph. At the beginning of a session I would murmur to my assistant not to put the film in the chassis of my Hasselblad and would start “photographing” until the person loosened up. By doing so, I would save up films and the later development of images that were made in moments of tension and that supposedly would not interest me. After the third “false” film I would start photographing for real and I thought that I would then find the ideal situation and the work would come out perfectly. This was obviously a secret, especially to the eyes and ears of the person in front of my camera in the photographic set. After missing many opportunities to obtain good portraits - when the human being in front of me surprised me by involuntarily offering his best right from the start – I realized I had made a mistake and I abandoned this tactic.

 

Over the course of my life I learned that we will never know beforehand when we will attain “the photo.” It can be at anytime from the first to the last click of a session. Apart from the fact that this idea of “relaxation” is false, how many beautiful portraits are made and have been made in moments of tension?  

 

Bob Wolfenson