Bob Wolfenson: O Espelho do Outro

por Fernanda Young, 2018

É complicado ser fotógrafo. Todos os ofícios que são descritos, romanticamente – e erroneamente – como dons, tornaram-se obscuros com a democratização dos recursos técnicos. E nenhum foi mais banalizado quanto o ofício do fotógrafo. Não apenas por causa dos Japoneses, da digitalização e das redes virtuais, que transformaram unhas e comidas em objetos de "ensaios fotográficos". Nem por todos terem acesso a aplicativos que deixam qualquer retrato retocado e centralizado, um post/sacada no instagram. Mas porque, ao ser revelado o “mistério” da arte fotográfica, que joga a fotografia ao plano do coletivo comum, perdeu-se uma liturgia qualquer, perdeu-se o respeito. Por isso é pouco provável que reconheçamos em um editorial de moda, por exemplo, o autor das fotos. São poucos os que conseguem sobreviver às inúmeras camadas de direção de arte, stylists, e que mantêm a sua assinatura ao final de um trabalho. E que, em meio a tanta inclusão, recortes e retoques, podem se nomear autores da foto. É o caso de Bob Wolfenson.

 

Sua sensibilidade para “ler” a luz e entendê-la conforme as circunstâncias, criando, muitas vezes, uma mistura da luz do dia com a luz artificial como se integradas, cria um cenário com recursos não muito perceptíveis aos leigos; mas que certificam ao autor a sua assinatura. “Um certo olhar, um modo de ver”, Bob assim descreve o que reconhece em seu trabalho. Trabalho esse que se revela vigoroso por mais de quatro décadas. A humildade não é falsa, quem o conhece sabe que ele não é exatamente modesto, no entanto, está realmente mais ocupado com aquilo que importa: que o tal olhar, o modo de ver, seja revelado.

 

A fotografia mostra, mais do que a imagem, a mortalidade, o esquecimento, contudo, ela também pode fazer o contrário: imortalizar e ser inesquecível. É uma das formas que mais gosto de ler histórias. O fotografo é um grande escritor, e posso afirmar que Bob Wolfenson sabe escrever muito bem, cada foto sua transparece, com perfeição, cada um de seus personagens.

 

A primeira vez que eu ouvi falar dele foi por meio de uma conhecida que era modelo, ainda na década de 80. Ela me contou que havia feito umas fotos com esse “cara incrível”, e a fez chorar para fotografá-la. Uns dez anos depois ele me fotografava para uma matéria e a sua gentileza me fez entender que as tais lágrimas deviam ser de colírio. Desde lá, isso foi em 1997, fizemos muitos ensaios, e juntei-me à unanimidade que ama Bob Wolfenson. É uma pessoa objetiva em suas intenções e sempre muito agradável com todos. O que provavelmente garante, afora o seu talento e sua grife, que ele se mantenha há tanto tempo no mercado de trabalho esvaziado pelas tais banalizações citadas no início deste texto.

 

Também soma o fato de Bob estar sempre em “trânsito”, como ele mesmo adora dizer. Advoga na máxima de que não há hierarquia de valores nos muitos fotógrafos que o habitam: o de moda, o de publicidade e o autoral. Este último, no entanto, tem tomado porte com o passar dos anos, o que vem a fortalecer os outros. Pois creio que se temos que usar o nosso trabalho para encomendas, devido às inevitáveis demandas financeiras, é necessário que o artista proteja seu olhar daquilo que é negociável. Triste aquele que não guarda espaço para esse exercício subjetivo e artístico – é certo que acabará por perder, inclusive, as encomendas.

 

O retratista Bob Wolfenson parece conseguir unir encomenda ao desejo de realizar algo seu. De sentir “uma intensidade, indefinível, abstrata mesmo”, quando aperta o obturador. Para nós que podemos observar o instante dessa tal intensidade, sempre conseguimos enxergar quem já vimos, tantas vezes, de uma maneira BW. Imagino que no seu íntimo, e ele não sabe disso, aquilo a que chama de “indefinível”, seja talvez, o seu desejo de fundir-se nesses muitos que fotografa. Quem não gostaria de habitar para sempre com pessoas que, admiráveis ou não, " belas ou não", de alguma maneira merecem ser imortalizadas? Eu gostaria de ficar junto de três ou quatro. E Bob, que já fez uns retratos memoráveis meus, comigo ficou.

 

Fernanda Young

-

 

It’s complicated to be a photographer. All the skills that are described romantically – and erroneously – as natural gifts have been obscured with the democratization of technical expedients. And none was more trivialized than the photographer’s craft. Not just because of the Japanese, digitization and virtual networks, that turned fingernails and food into objects of “photographic shoots.” And not because everyone has access to apps that retouch or centralize any portrait, a post – stroke of genius – on Instagram. But because by revealing the “mystery” of photographic art, placing photography in the same of the common collective, it has lost its liturgy, and with it its respect. For this reason, we are unlikely to recognize the author of the photos in a fashion editorial, for example. There are few who can survive the myriad layers of art direction, stylists, preserving their signature to the very end of the job. And who, in the midst of so much inclusion, cutting and retouching, can be designated authors of the photo. This is the case with Bob Wolfenson.

 

His sensitivity for “reading” the light and understanding it in conformity with the circumstances, often blending daylight with artificial light as if integrated, creates a scenario with expedients virtually imperceptible to the layman, but which certifies his authorial signature. “A certain look, a way of seeing,” is how Bob describes what he recognizes in his work – work that has remained vigorous over more than four decades. The humility is not feigned – those who know him knows he’s not exactly modest, nonetheless, he is occupied with what actually matters: revealing that specific look, that way of seeing.

 

The photograph shows, more than just an image, mortality, oblivion; but it can also do the opposite: to immortalize and make unforgettable. That is one of the ways I most love to read stories. The photographer is a great writer, and I can affirm that Bob Wolfenson knows how to write very well, every photo of his reveals each of his characters perfectly.

 

The first time I heard about him was through an acquaintance, a model, still in the 80s. She told me she had done a photo shoot with this “incredible guy” who, to photograph her, made her cry. About ten years later he photographed me for a story and his kindness made me understand that those tears must have been eye drops. Since then (1997), we did many photo sessions, and I joined the unanimity that loves Bob Wolfenson. He is objective in his intentions and always very pleasant with everyone. Which, apart from his talent and his “brand”, is probably what has guaranteed remaining so long in a market drained by the banalizations mentioned at the beginning of this text.

 

It also counts that Bob is always “transient”, as he himself loves to say. He defends to his maximum that there is no hierarchy of values in the many photographers who inhabit him: Fashion, advertising and authorial. This last one, however, has taken precedence with the passing of the years, and in effect strengthens the others. For I believe that if we have to use our work for commissions, due to the inevitable financial demands, it is necessary that the artist protects his way of seeing from what is negotiable. Sad is he who does not preserve space for his subjective and artistic exercise – it is certain that his will be the lost – even of the commissions.

 

The portraitist Bob Wolfenson seems able to unite commissions with the desire to accomplish something of his own. To feel “an intensity, indefinable, even abstract”, when he presses the shutter. For those of us who can observe the moment of this intensity, we always manage to regard someone we have seen many times before in a BW mode. I imagine that intimately, without his knowing it, what Bob calls “indefinable” might be his desire to fuse with all those he photographs. Who would not want to abide perpetually with people who, admirable or not, “beautiful or not,” somehow deserve to be immortalized? I’d like to stay together with three or four. And Bob, who has made some of my most memorable portraits, has stayed on with me.

 

Fernanda Young