Bob

por Fernanda Torres, 2018

Quando na torpeza do meu celular, fotografo um amigo, e reconheço na imagem o íntimo da figura, costumo dizer que se trata não de uma foto, mas de um portrait.

Alguns retratos são retratos. Outros são portraits. O esnobismo da palavra é graça boba. O termo me remete à pintura, à subjetividade da tinta sobre o papel, por isso gosto de usá-lo.

 

O portrait captura algo de torto, de etéreo e imaterial, que se estende para além do corpo impresso na tela. A persona, o humor de fundo, que ninguém é capaz de controlar, ou esconder, do olhar de quem vê.

 

Alguns fotógrafos trabalham como intérpretes, imprimindo sua visão pessoal sobre o retratado. A pose nesses casos, é elaborada, as sessões duram muito e exigem um esforço consciente para se chegar a um objetivo planejado.

 

Com Bob Wolfenson é justo o contrário. As jornadas são curtas e de uma simplicidade desconcertante. Das vezes em que estive diante dele, sai com a impressão de que não havia sequer posado. O resultado, no entanto, sempre se revelou verdadeiro, assustadoramente honesto, como um espelho do que eu era, ou buscava ser naquele instante da vida.

 

Assim como os vinhos, o portrait se apura com o tempo. Dez, vinte anos depois de feito, ele já não captura apenas o ser, mas também a época, o cheiro, a música, a crença e a história em torno do personagem.

 

A foto dos irmãos Frias sempre me impressionou. O olhar tímido, quase assustado, mas também sério e agudo dos dois. As feições de meninos nos ternos de homem. Rostos cinzas, como São Paulo. Quando eu soube da morte de Otávio, nesse ano funesto de 2018, a primeira imagem que me veio à cabeça foi aquela, do Bob. Meu cérebro a selecionou por mim porque a vi muito jovem, quando tentava conquistar a me entender na Pauliceia, saindo do ninho Asdrubalíssimo do Rio de Janeiro. Não existia nada na Guanabara que se parecesse com aqueles irmãos. A foto resumia o medo, a estranheza e a curiosidade que eu sentia pela inteligência, a cultura e o poder da terra da garoa.

 

Senti algo semelhante quando soube da morte do Tunga, A foto em preto e branco do passeio dele pela Avenida Paulista, com seu terno branco em elegante desalinho, surgiu luminosa na memória, como prova concreta da sofisticação liberta e da altivez poética do artista. Para os que o conheceram, é quase como estar de novo em sua companhia; para os que não, é possível identificar, no homem, a fonte do requinte de sua arte.

 

A petulância irônica, seriamente humorada da sobrancelha erguida de Caetano Veloso e seu amor pela ainda menina Paula. Minha feminilidade, muitas vezes escondida. A dissonância de Luiz Melodia expressa no corpo. A redondez dos olhos e do rosto franco de minha mãe. A soberba blasé de Jabor e a suprema felicidade do baiano Caymmi. E Lina linda, e Rita gata, e Francis cômico, e Chico macho, e Mautner sexy; e Joãozinho Napoleônico, sobre o cavalo da alegoria.

 

Os corpos e rostos plenos de seu predicado, da característica que os guia e define. E não pela vontade imposta do fotógrafo, mas pela humildade que Bob persegue e pratica no fundo infinito de seu estúdio.

 

Quem teve o privilégio de estar sob a dócil mira de sua lente, experimentou, como eu, a rara a beleza de se ser o que é.

Fernanda Torres 

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When, despite the obtuseness of my cell phone, I photograph a friend, and recognise in the image the essence of the person, I usually say that it’s not a photo, but a portrait.

 

Some pictures are pictures, others are portraits. The snobbery of the word has a kind of silly charm. The term refers to painting, to the subjectivity of paint on paper, that’s why I like to use it.

 

The portrait captures something of what is awry, ethereal and immaterial, which goes beyond the body imprinted on the canvas. The persona. the background humor, that no one is able to control, or hide, from the gaze of those who observe.

 

Some photographers work as interpreters, imparting their personal vision of the one who is portrayed. In these cases, the pose is elaborated, the sessions are long and require a conscious effort in order to achieve the intended objective.

 

With Bob Wolfenson it’s exactly the opposite. The sessions are short and disconcertingly simple. Of the times I was in front of him, I left with the impression that I hadn’t even posed. The result, however, always proved truthful, frighteningly honest, like a mirror of what I was or sought to be in that instant of life.

 

Like wines, the portrait is refined over time. Ten, twenty years after it’s made, it no longer captures just the being, but also the times, the smell, the music, the beliefs and the story around the person.

 

The photo of the Frias brothers always impressed me. The shy, almost frightened look, but also serious and penetrating of the two. The countenance of boys in men’s suits. Grey faces, like São Paulo. When I heard about Otavio’s death, in that fateful year of 2018, the first image that came to mind was that one, by Bob. My brain selected it for me because I saw it when I was very young, when I was trying to come to an understanding of myself in São Paulo, having left the nest of the comic and anarchic theatrical group Asdrubal in Rio de Janeiro. There was nothing in Guanabara that looked like those brothers in São Paulo. The photo summed up the fear, the strangeness and the curiosity that I felt with regard to the intelligence, the culture and the power of the “drizzly city”.

 

I felt something similar when I learned of Tunga’s death. The black-and-white photo of his outing on Avenida Paulista, with his white suit in elegant disarray, emerged luminous in my memory, like concrete evidence of the artist’s unfettered sophistication and poetic nobility. For those who knew him, it’s almost like being in his company again; for those who didn’t, it is possible to identify, in the man, the source of the refinement of his art.

 

The ironic, seriously whimsical petulance of Caetano Veloso’s raised eyebrow and his love for Paula, still a girl. My femininity, often hidden. The dissonance of Luiz Melodia expressed in his body. The roundness of my mother’s eyes and the frankness of her face. The blasé haughtiness of Jabor and the supreme happiness of the Bahian  Caymmi. And beautiful Lina, and the hot Rita, and comical Francis, and macho Chico, and sexy Mautner; and Napoleonic Joãosinho, riding horseback in the carnival tableau.

 

Bodies and faces fraught with their attributes, the characteristics that guide and define them. And not by virtue of the imposed will of the photographer, but as a result of the humility that Bob pursues and practices in the infinite backdrop of his studio.

 

Those who have had the privilege of being under the docile aim of his lens, have – like me – experienced the rare beauty of being what one is.

Fernanda Torres