Capturas

por Carlos Nader, 2010

Ao fotografar objetos e animais apreendidos pela polícia, Bob Wolfenson escancara um fundamento central da arte de capturar imagens. Ele nos lembra que a própria fotografia é em sua essência também uma apreensão, uma captura. E quando nos coloca como espectadores diante de uma dessas apreensões duplicadas, o fotógrafo abre um estimulante jogo metalingüístico de reflexos. Apreendemos aquilo que ele apreendeu do que foi apreendido. Apreendemos exponencialmente.

Uma arte que reflete sobre a sua própria essência nos leva a refletir sobre a nossa. Ainda que diga algo de muito relevante sobre uma sociedade cingida pelo crime ou sobre uma época superlotada de mercadorias, o ato de retratar armas confiscadas, celulares contrabandeados e animais silvestres engaiolados vai além da idéia de denúncia social. Recapturada, cada uma dessas assemblagens provocadoras, tendo sida antes ready-made por um homem da lei e depois shot por um homem da luz, constitui uma obra autônoma que penetra individualidades. E como toda experiência artística transformadora, contém um grau benigno de ameaça à segurança privada.

Neste tiro essencialista, Wolfenson ainda expande o conceito de um gênero tradicional das artes visuais. A natureza morta. A alma dos still-lifes de alta definição e alta periculosidade está impregnada tanto de natureza (a humana) quanto de morte (idem). Esta polaridade alternada energiza não só os objetos inertes da imagem exposta mas também as imagens internas da nossa mitologia pessoal. Somos impelidos a imaginar as estórias que a muamba sonega. Quem a concebeu? De onde veio? Para onde ia? Estas questões sempre seminais colocam em movimento os textos que constituem nosso sistema operacional íntimo, os mitos que formam nossa visão de mundo. E o ciclo de capturas proposto por Bob Wolfenson se revela liberador.