Richard Avedon

Darcy Ribeiro por Bob Wolfenson

“Fotografar pessoas é violá-las, ao vê-las como elas nunca se veem, ao ter um conhecimento delas que elas nunca podem ter; as transforma em objetos que podem ser simbolicamente possuídos.”
Susan Sontag.

O retrato é a arte de um encontro. Segundo Richard Avedon, o retrato representa a opinião do fotógrafo sobre o sujeito que é fotografado. No entanto, eu arriscaria dizer que o retrato constitui um conflito entre essa “opinião” e os desejos e aspirações do fotografado – ora assustado, ora animado, mas sempre profundamente intrigado diante a situação. E esse conflito, ao contrário do que muitos acreditam, não representa um problema. Ele é, a bem da verdade, a essência de um “bom retrato.”

​Ainda assim, constantemente me pergunto: o que faz um “bom retrato”? Creio não existir resposta certa para essa indagação. O bom retrato é um milagre. Salvo raras exceções, o retrato é uma encomenda de uma revista, de um livro, ou até mesmo do retratado. O processo de criação do retrato envolve, de um lado, o fotógrafo, sua câmera e uma encomenda a ser realizada em mente e, de outro, o fotografado, que trabalha para projetar sua própria imagem da melhor maneira possível – quem não quer sair bem na foto?

Essa relação da qual estamos tratando é mais complexa do que, em um primeiro momento, parece, e é nela que o "milagre" sucede: quando esse encontro se torna vivo, ou seja, quando você se depara com algo que transcende as demandas da encomenda e do sujeito, estará diante do elemento evocativo e íntimo que resultou desse processo (a fotografia).

​O retrato é extremamente invasivo, nem mesmo um espelho é capaz de refletir certos aspectos que uma foto reproduz. A imagem que enxergamos quando nos olhamos no espelho é muitas vezes invertida e manipulada por nós mesmos, por nossa insegurança natural e pelos infinitos padrões que a sociedade nos impõe. Basta um simples gesto - o menor que seja - para que nós nos enxerguemos melhor. O retrato, por sua vez, tem o poder de congelar esse momento que nunca fora visto. Dessa forma, os retratos formam uma hiperrealidade e não necessariamente representam a realidade – um conceito constantemente abordado por diversos gêneros fotográficos.

Através da fotografia, sou capaz de descobrir e me redobrar em detalhes que jamais seriam notados a olho nú na vida real.

Bob Wolfenson

“To photograph people is to violate them, by seeing them as they never see themselves, by having knowledge of them that they can never have; it turns people into objects that can be symbolically possessed.” 

Susan Sontag.

Portraits are an encounter and as such, they follow the nature of encounters. Richard Avendon would say that a portrait is the opinion of the photographer about the subject being photographed. I feel, however, that a portrait is the confrontation of this “opinion” against the desires and wants of the photographed – sometimes nervous, scared and intimidated but always intrigued by the situation. And this tension, unlike what many believe, is not a problem and is instead the essence of a “good portrait.”

 

Still, What makes a “good portrait”? There is no answer to this question. A good portrait is a miracle. With rare exceptions, a portrait is most of the time an order from a magazine, book or even from the subject of the photo itself. The process of creation of a portrait involves, on one side, the photographer with his camera and an order in mind and on the other, the photographed, who is trying to project his own image – who doesn’t want to look good in the picture?

 

This relationship is more complicated than it seems and it is exactly where the miracle resides: when this encounter comes to life, in other words, when you find in the result of this process (the photograph), something that makes it evocative and intimate, transcending the demands of both the order and the subject.

 

A portrait is extremely invasive, not even a mirror is able to portray certain aspects that a photo can reveal. The image we see when we look at a mirror is many times inverted and manipulated by ourselves in our natural self-consciousness and by the infinite norms that society imposes upon us: with a simple movement, as small as it may be, we seem better to our eyes. A portrait, on the other hand, has the power to freeze this moment that is never seen. In this sense, these portraits form a hyperreality and do not necessarily represent the truth; an aspect so dwelled upon in many photographic genres.

 

Through photography, I manage to discover and linger on details that would have never been seen through the naked eye in real life.

Bob Wolfenson