Annie Leibovitz

Keith Herring por Annie Leibovitz, 1986

Ao aceitar o convite desta Vogue  para  escrever sobre o lançamento do livro “Sumô” – da legendária  fotógrafa americana Annie Leibovitz, debruçei-me sobre sua obra de tal forma e a tal ponto, que me vi absorvido pela imagem de um suposto  ser extraterrestre que desce à terra, exerce o mesmo ofício que o meu, e assim  me assombra com a potência e dimensão do que faz. Daqui penso, do alto de minha fragilidade terráquea, que talvez tal visão só tenha existido por Leibovitz ser a personificação deste ET.  E sim, de fato, ela é de “um outro mundo”, pois faz algo quase inatingível e muito original, fruto de uma trajetória  que só pôde florescer nas condições culturais dos Estados Unidos a partir dos anos 1960. Lá suas ideias e sua  autonomia autoral  ganharam respeito - em que pese as normais injunções comerciais e editorias do metiér -, e acesso à todas as personalidades célebres do showbusiness mundial , que em algum momento de suas vidas posaram para aquelas lentes.

         De todo modo, falar de Annie Leibovitz é quase  um assunto esgotado tamanha a profusão de livros, revistas, exposições, resenhas e artigos sobre sua prolífica obra, fruto de uma incansável abnegação ao longo de uma carreira de mais de quarenta anos.  Mas devo falar algo e tentar o que talvez não tenha sido dito. Missão impossível. Então vou tentar  me ater ao seu método, falar de sua excelência na execução de suas imagens, de  seu controle na direção dos sujeitos postos defronte à sua câmera, no controle de luz excepcional e dificílimo de fazer. Leibovitz mistura, com proeza, as luzes naturais existentes nas locações decididas por ela, com as artificiais de flashes eletrônicos e/ou HMIS usados para iluminação de cinema . O enigma de Annie é que sua luz não aparece, esta mistura é feita em uma técnica desenvolvida por ela de uma forma tão  pessoal, que é impossível recriá-la, apesar de muitos tentarem.

O que se pode dizer mais de Annie? Que a imensa maioria de suas imagens se tornaram icônicas, a começar pelo retrato de John Lennon nu em posição fetal e Yoko Ono vestida, ( não consta neste livro) abraçados, vistos pela perspectiva de uma tomada de cima.  Esse retrato, após a morte de Lennon, oito horas depois de realizada esta sessão fotográfica, se tornou a imagem mais contundente do grande amor vivido por eles ao longo de sua conturbada relação. Uma infinidade de artistas, escritores, atores, músicos, políticos e esportistas  se postaram à sua frente,  formando um genial painel  humano da cultura pop norte-americana e internacional dos últimos 40 anos. Agora,  o passaporte para ingressar no panteão dos heróis pops passa por ter sido retratado por ela.  No entanto, um dos maiores méritos de sua longa carreira é o alcance de sua audiência. Talvez ela esteja entre os muito pouquíssimos que conseguiram diluir a fronteira entre a alta arte e o mainstream, como diz o curador e teórico de arte Hans Ulrich Obrist em texto de apresentação do livro.

 

Desde o princípio, Annie povoou os sonhos de muitos que alimentavam a ideia de se tornar fotógrafos. Ela sempre foi um modelo a seguir e um objetivo a alcançar como carreira, postura e realização profissional. E neste sentido,  Annie operou uma transformação única, passou de uma fotógrafa de reportagens jornalísticas em preto e branco, em que a realidade jorra  sua aspereza  ao ponto de não poder haver sequer alguma alteração  do acontecimento à frente do fotógrafo, para uma espécie de encenadora rigorosa e ficcional que trabalha com elementos da realidade estetizando-os e controlando-os no sentido de compor as suas imagens ultra ensaiadas e roteirizadas previamente.

         Ela mesma, no prólogo do livro, comenta a respeito das 2 fotografias inaugurais deste, postas em sequencia no sentido de sublinhar esta passagem. A primeira é uma fotografia de Richard Nixon, então presidente dos Estados Unidos,  deixando a Casa Branca como último ato depois do impeachment perpetrado pelo Congresso após o escândalo do caso Watergate. Uma cena pronta que só resta ao fotógrafo registrá-la , mas que obviamente tem que haver talento e técnica para que se concretize em uma grande imagem. Na página seguinte, a imagem da rainha Elisabeth feita quarenta anos depois e encomendada pela própria família real, como se fazia outrora com os grandes mestres da pintura. Trabalho este super ensaiado e, como ela diz , com a mesma intensidade de pressão sofrida quando da realização da imagem  de Nixon, mas com métodos e resultados diametralmente opostos.

Entre este dois momentos corre seu caminho repleto de originalidade, cores, drama, e personagens inesquecíveis, lindamente editado neste livro.

Bob Wolfenson

When I accepted Vogue’s invitation to write about the release of the book “Sumo” by the legendary American photographer, Annie Leibovitz, I grasped her work in such a way and to such an extent that I found myself absorbed by the image of a supposedly extra-terrestrial being, who comes down to earth, practices the same profession as I do and haunts me with the potentiality and dimension of what she does. Sometimes, at the peak of my earthly fragility, I think that maybe this perception only exists because of Leibovitz’s ET personification. And yes, she is in fact from “another world,” as what she creates is almost unattainable and very original, by virtue of of a trajectory that can only blossom under the cultural conditions of the United States from the 60s onwards. There, her ideas and her autonomous auteur style gained her a respect – apart from the normal commercial and editorial injunctions of her profession– and access to all the personalities and celebrities of the global show business, who, at some stage of their lives, posed in front of her camera.

 

In any case, Annie Leibovitz is almost an exhausted subject due to the huge amount of books, magazines, exhibitions, essays and articles on her prolific work, a result of an inexhaustible altruism, incessant during her career of more than forty years. Nevertheless, I have something to say, and I will try to share things that have not yet been said. Mission impossible.  I will stick to her method and talk about her excellency in the execution of her images, of her direction of the people she photographs and of her exceptional light control - a challenge to achieve. Leibovitz fuses, with prowess, the natural light of the locales she chooses with electronic flashes and/or HMIS, used for lighting in filmmaking. Her enigma is that her light never shows. This fusion only happens through a technique developed by Annie herself, in such a personal manner that it is impossible to recreate it, yet many have tried.

 

What else can one say about Annie? A great majority of her images have become iconic, starting with the portrait of John Lennon in a foetal position next to Yoko Ono dressed (it is not mentioned in this book). They are hugging each other, seen by a bird’s eye view perspective. This portrait, after Lennon’s death, eight hours after the photographic session, became the strongest and most representative image of their love during their turbulent relationship. A huge number of artists, writers, actors, musicians, politicians and sportspeople posed for her, constructing a genius human panel of the American and international pop culture of the last 40 years. Nowadays, one has to be photographed by Leibovitz in order to join the pantheon of pop heroes. Still, one of the biggest merits of her career is her affinity with her audience. Perhaps she is amidst the few artists that have succeeded in diluting the border between high art and the mainstream, as stated by the theoretical art curator, Hans Ulrich Obrist, in the text presenting the book.

 

From the very beginning of her career, Annie populated the dreams of many who aspired to become a photographer. She has always been a model to follow and her posture and professional realization have been a common goal to achieve. In this sense, Annie lived an unique transformation, she went from being a photojournalist working with black and white photography - where reality propels its harshness to a point that there cannot be any form of alteration of the events in front of the photographer - to being a rigorous fictional director, who works with elements of reality, aestheticizes and controls them in order to compose her images that have been previously scripted and rehearsed.

 

Leibovitz herself, in the prologue of her book, mentions two of its photographs, inserted as a sequence in order to highlight this transformation.  The first is a photo of Richard Nixon, the then president of the United States, leaving the White House as a last act following his impeachment after the Watergate scandal. A prepared scene, waiting to be registered by the photographer, but that obviously requires talent and technique in order to be concretized as a good image. On the next page, the image of queen Elisabeth, made forty years later and ordered by the royal family themselves, as they would order from the masters of painting back in the day. A largely rehearsed work and, as she states, she suffered the same intensity and pressure as she did when photographing Nixon, but the methods and results were diametrically opposite. 

 

Between these two moments one can understand her trajectory, filled with originality, colours, drama and unforgettable personalities, now beautifully edited in this book.

Bob Wolfenson