BOB WOLFENSON

Minha tendência a fazer muitas coisas, creio, me distinguiu um pouco da atividade pura e simples de fotógrafo. Os termos profissão e carreira não pude evitar ao longo destas escrituras; no entanto, como disse muitas vezes neste livro, eles não dão conta do todo de minha vida. Fui incursionando em outras áreas sem muito me aperceber, sem muitas estratégias. Fui porque me chamaram ou por alternativa a um certo enfado sentido quando se faz uma coisa por muito tempo. No princípio dos anos 2000, resolvi que poderia fazer uma revista, editá-la, sonho que acalentara desde os anos 90. Só que antes imaginava uma revista de fotografia e, em 2000, uma publicação mais plural, que pudesse dar aos criadores de imagens nacionais oportunidades de aparecerem de uma forma mais integral. A meu ver, éramos e somos subaproveitados nas revistas mainstreams. Em função de articulações para que tal se realizasse, me associei aos publicitários Hélio Rosas, Roberto Cipolla, e ao produtor Chico Lowndes, e criamos a revista 55, que durou apenas dois números. Apesar de luminares do texto, como Antônio Cícero, Caetano Veloso, Arnaldo Jobor, Waly Salomão, terem sido publicados nela, ciceroneados pelo nosso editor permanentemente convidado, o jornalista Marcos Augusto Gonçalves, seu conteúdo era eminentemente de imagem. Foi um show de arte gráfica, impressão e excelência visual. As duas edições da 55, cujos temas foram “tempestade” e “sorte”, saíram para as bancas, a primeira com uma capa de plástico com sulcos em relevo que imitavam chuva e a segunda imitando uma pele de gato preto, em claras alusões aos respectivos temas. Era realmente muito caro fazê-la. Um projeto arrojado e, como tudo com essa característica, morreu cedo. Millôr Fernandes fez um comentário elogioso em seu blog ou site, falando de nossa ousadia e vaticinou: “até que a primeira briga os separe”. Dito e feito. Chico saiu, houve dissensões, mas continuamos, mudamos o nome e a cara da coisa e matizemos o espírito de uma publicação com forte conteúdo de imagem. Nasceu a S/No, menos ambiciosa que sua antecessora, mais barata, mais realista, sem tantas alegorias gráficas, mais exequível e próxima do que seria de fato uma revista, porém anda muito acima em termos visuais e de apuro gráfico do que qualquer outra publicação que vinha sendo feita no país. Seis números depois, o grupo remanescente se desfez e segui nela, me assinado então ao jornalista Hélio Hara, que já a editava e havia trazido um renovado vigor com sua rede de novos colaboradores e seu texto precioso e eloquente. Até hoje nós a publicamos com relativo sucesso – são dois volumes por ano. Considero esse período, com o Hara como sócio, o mais brilhante de nossa existência editorial, e tudo isso sem abrir mão de nossa independência.