BOB WOLFENSON

OCORRÊNCIAS

Ao me deparar frequentemente com a infinidade de apreensões policiais publicadas nos jornais, me ocorreu a idéiia deste trabalho. Se por um lado era uma experiência à parte de minha vivência mais prosaica, por outro a presença acachapante destes fatos na vida de todos nós não nos deixa indiferentes à eles. E mais que isso, ao sermos assomados por estas notícias, elas acabam por se naturalizar. Não nos chocam mais. O paradoxo do excesso de informação é exatamente este: quanto mais vemos, menos enxergamos. Nos acostumamos às coisas, nos tornamos “cegos de tanto vê-las”. A sugestão de que estas imagens tivessem grande riqueza nos detalhes está contida nestes pressupostos, pois ao resignificar as apreensões através de fotografias de “assemblages” dos materiais apreendidos e ampliá-las em formatos e tamanhos pouco usuais para este assunto, acredito iluminar os aspectos mais obscuros e menos visíveis destes eventos noticiados nas publicações diárias.

O caminho percorrido por mim, para que este inventário de uma certa tragédia brasileira fosse realizado, foi longo e de difícil acesso. O aparato técnico que utilizei para ressaltar em grandes detalhes aquilo que vemos na mídia sem nenhum artifício edulcorante – aliás, como deve ser mesmo, atendendo às questões mais jornalísticas-, foi novo para mim. De todo modo, cheguei à ele na busca de um procedimento que substituísse os sistemas analógicos mais tradicionais e que me possibilitassem uma certa agilidade no set fotográfico e também na pós produção. O sistema de “varredura” digital, ou seja, um fracionamento da cena no momento da tomada fotográfica, para que a imagem final alcançasse uma definição alta, foi por mim utilizado ao longo de todo este trabalho, salvo nas fotos dos animais, pelo fato de se moverem e impossibilitarem esta variável.

Enfim uma tarefa: negociar com as autoridades e fazer com que estas imagens fossem vistas por elas, como de fato as vejo, não como prova de nada e muito menos como denúncias veladas à inoperância ou eficácia do Estado, mas sim através de uma visão artística e pessoal de fatos cotidianos relevantes e como um retrato de um certo Brasil. Além das dificuldades inerentes a tal empreitada, lidar com os meandros destes salvos condutos foi um aventura única e prazerosa. Neste caminho encontrei juízes, policiais, fiscais e secretários de estado que se mostraram muito colaborativos. Obviamente encontrei também interdições de toda ordem que se justificavam face a gravidade do assunto.

No entanto, ao me lançar nesta jornada, me surpreendi com o resultado das Apreensões: tanto pela grande diversidade de formatos e tamanhos das ampliações finais que não estavam previstas nas minhas premissas, mas acabaram sendo constituintes do trabalho, quanto pelo encontro com cenas já prontas, pessoas e situações incomuns ao meu universo.

As apreensões afetam a todos e de fato estas imagens não pretendem soluções para as questões sociais e jurídicas subjacentes à elas. Dessa forma, não tenho nenhuma resposta para dar a não ser: uma certa apreensão.

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