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JORNAL O GLOBO / RJ
quarta-feira, 15 de setembro de 2010ENTRE ARMAS E SEIOS / Famoso por fotos de mulheres e retratos, Bob Wolfenson festeja 40 anos de carreira com ‘Apreensões’ / O GLOBO
quarta-feira, 15 de setembro de 2010Em seu livro “Cartas a um jovem fotógrafo: O mundo através das lentes” (Editora Campus, 2009), o fotógrafo Bob Wolfenson, de 56 anos, usa sua trajetória pessoal como uma metralhadora destinada a desconstruir com ironia o glamour que se costuma associar à profissão: estúdios, locações incríveis, divas da TV ou das passarelas dando ataques de pelanca, flashes e a guerra de egos no strike a pose, o hercúleo trabalho de produção antes dos cliques. Está tudo lá. Mas para deixar claro que nada é o que parece.
A certa altura, ele explica a natureza dos retratos, categoria que o colocou no seleto grupo de fotógrafo brasileiros de imagens geniais e de grande impacto (especialmente os nus femininos feitos para a revista “Playboy” a partir dos anos 90): “Nem o espelho consegue mostrar determinados aspectos que uma foto pode revelar, pois quando nos olhamos no espelho, aquela imagem que vem através dele está invertida e é sempre manipulada por nós
mesmos com a nossa natural impiedade ou autocondescendência: um movimento, por menor que seja, e estamos melhores aos nossos olhos. Já a fotografia tem o poder de congelar um momento que você nunca vê.”
Em 2010, Bob Wolfenson completa 40 anos de carreira dentro do mesmo espírito desconstrutivo, e, segundo ele, caótico. Para comemorar, armas, computadores, celulares e até animais silvestres: Bob acaba de inaugurar no Centro Universitário Maria Antônia, em São Paulo, a mostra “Apreensões”, com 20 fotos com materiais variados confiscados em operações da polícia. A exibição vai até 10 de outubro e será seguida, em setembro, do
lançamento do livro “Apreensões”, com o trabalho fotográfico completo, em edição caprichada feita pela Cosac Naify.
— É um ensaio para retratar uma época, um país por que muita gente passa sem ver. A mostra é em fundo branco, sem tratamento, porque procurei não fazer concessão a um certo “bom-gostismo”. Eu me sinto assim, muito mais ligado ao trabalho que estou fazendo agora do que com algum olhar retrospectivo — diz ele.
Na sala principal de seu estúdio na Vila Leopoldina, Zona Oeste de São Paulo, Bob, de camiseta, jeans e barba for fazer, discorre sobre o acaso na sua carreira:
— Desde que entrei no estúdio da Editora Abril, em 1970, aos 16 anos, tudo foi ao sabor dos acontecimentos. Meu pai tinha morrido, e, por indicação do meu cunhado, fui assistente de fotógrafos como Luís Tripolli, Antônio Guerreiro e José Antônio ali. Quatro anos depois, por influência da militância dos meus pais, decidi fazer Ciências Sociais na USP. Saí da Abril, montei pequenos estúdios, fiz trabalhos sob encomenda, larguei a faculdade e, em 1980, vendi tudo e fui para Nova York, onde fui assistente do fotógrafo Bill King. Voltei um ano e meio depois. Quando percebi, já tinha uma certa carreira — conta.
Bob é casado há 30 anos com Mariza Guimarães e pai de três filhas — Francisca, Helena e Isabel. A rotina é de casa para o trabalho, intercalada com alguns jantares em família e recepções para os amigos. Ele não esconde as influências do fotógrafo Richard Avedon, citado várias vezes:
— Como o Avedon, não acredito em fotografia como captação da alma do fotografado. Não tem que ter essa pretensão. Outro mito é a ideia de que foto boa é aquela descontraída. Um dos meus melhores retratos é do escritor João Cabral de Melo Neto. Ele estava desconfortável, odiando estar ali — diz
ele, que cita a foto do cantor Caetano Veloso fazendo careta como a mais emblemática de seu trabalho. — A verdade é que a fotografia obedece à natureza dos encontros entre quem fotografa e quem é fotografado.
O fotógrafo J. R. Duran (“uma rivalidade de certa forma alimentada por todos à nossa volta, especialmente as editoras de revistas de moda”, diz Bob) se diverte com o amigo:
— Ele é o melhor concorrente que poderia ter, e o conheço desde que tinha cabelo. Na dedicatória de seu livro “Jardim da Luz”, onde eu sou fotografado, ele resumiu bem nossa relação: “Para Duran, meu oposto idêntico.”
O que não significa que Bob, um profissional inquieto com 12 anos de psicanálise nas costas, seja uma flor de criatura. Sabe a exata noção de seus limites e de sua estatura. Admite que se intimida por certos fotografados, mas com as revistas é chato mesmo:
— Um dia, um editor de arte de uma grande revista de moda cortou todas as fotos que fiz. Eu mandei um e-mail e disse que não contassem mais comigo. Porque o trabalho é uma sintonia de desejos. A revista sabe quem você é, eu sei a importância que ela tem. O que não impede que haja trocas. Essa tensão entre o fotógrafo e a revista é boa, mas não tem império de um ou de outro. É um encontro.
Mês que vem a “Playboy” publica o aguardado ensaio com a atriz Cléo Pires. Os nus femininos aconteceram aos poucos na vida de Bob desde 1985, quando começou a trabalhar para a revista. Muitos ele considera ruins. O marco divisor aconteceu em 1996, quando o ensaio com a atriz Maitê Proença na Sicília, na Itália, ganhou a capa da publicação. Para ele, a decisão de juntar as fotos de nudez com um ambiente local, mas sofisticado (“como numa
foto para revista de moda”, explica) foi um grande impulsionador de sua carreira.
— Ficou bem mais fácil depois que a “Playboy” decidiu dar às mulheres uma participação nas vendas — diz.
Também ajuda ser amigo dos fotografados, caso da modelo Gisele Bündchen, que não cobrou cachê para posar para a capa da revista de Bob, a “S/N”, publicação semestral e sonho de todo profissional de imagem: um lugar onde os textos complementam as imagens, e não o contrário.
— É lugar para os sem-revista — diz ele.
Gilberto Scofield Jr.
